After the Hunt Um dos filmes mais aguardados do ano foi também uma desilusão. Talvez porque ninguém sabia bem o que esperar e Guadagnino fez o filme que queria, não o que esperavam dele. A história tem lugar no meio académico. Alma, uma professora de filosofia, gosta de organizar serões para troca de ideias. Além dos seus amigos snobes também tem o seu colega Hank e vários dos seus doutorandos. Numa dessas noites, Maggie, uma das alunas, saiu com Hank. No dia seguinte confessa a Alma que ele a violou. Entre decisões a serem tomadas, consequências a serem enfrentadas, a posições a serem assumidas, todos vão ser afectados por isso. Acima de tudo, este é um filme que atravessa gerações. Consoante a personagem com quem nos identificamos, teremos uma visão diferente da história. Alma é a professora com décadas de experiência. Já viu de tudo e preocupa-se com o estatuto. Mas é exigente com todos. Esta situação até a pode beneficiar – competia contra Hank pela cátedra em Yale – mas está revoltada pelo que a faz recordar. Há uma história semelhante no seu passado. E tem outros problemas no presente. Assume-se como que com uma autoridade moral sobre os outros, sendo que na verdade até será quem tem mais falhas. Ainda que seja excelente a disfarçá-las. Representa uma geração que assiste âs mudanças sociais e, como muito bem descrito por Maggie, tem boas intenções, mas é incapaz de se adaptar a um novo feminismo. Julia Roberts já interpretou várias professoras. Esta foi a primeira verdadeiramente complexa e, ainda que não nos surpreenda, é convincente. A tal ponto que se torna difícil imaginar mais alguém no papel. Mas por ser uma personagem muito contida e controlada, parece uma interpetação frouxa o que está longe da verdade. Hank é um novo estilo de professor. De outra geração, mas também mais jovem em idade. E homem. Tem comportamentos irreverentes que não seriam bem vistos ou tolerados vindos de uma mulher. Está impregnado de confiança. Garfield dá muito pela personagem, mas cai em exagero. É com as pequenas coisas que faz de Hank um credível vilão desde o início. Sendo Hank das poucas perspectivas masculinas, ao entrar nas engranagens do socialmente correcto, do #MeToo e do cancelamento, fica com a reputação e a vida destruídas num instante. Isso vai fazer com que se veja um lado mais selvagem deste professor, ao mesmo tempo que vemos que até é competente e não estava lá só por ser um homem branco cis e hetero. Alma é a aluna aparentemente genial e de enorme potencial. Envolve-se em conversas inteligentas e tem opiniões válidas. Vem de uma família abastada e com estatuto, mas assim que tem dificuldades e quer ser ouvida, usa a carta da raça. Atendendo ao contexto em que se insere, até terá alguma razão. É que, se a universidade acreditou e agiu imediatamente, a sociedade precisa de um pouco mais para se chocar. Cada um deve usar o qaue tem para ser ouvido. Ambos os professores vêem para lá da máscara, mas ela avança como rosto de uma causa. Não a exigir mudanças sistémicas, mas apenas a exigir ser ouvida. Que aos outros parece ruído, mas para ela é erguer-se e lutar perante as dificuldades. Ayo Edebiri não foi a primeira ou segunda escolha para o papel, mas tornou-o seu. Foi bem mais interessante aqui do que como jovem jornalista em “Opus”. Pelas expressões faciais. Pelas micro-pausas nos diálogos. Pela raiva contida. Por conseguir manipular a opinião com um olhar. Os poucos minutos a que tem direito bastam para mostrar que temos uma estrela em ascensão aqui. Uma nota ainda para o incrível Michael Stuhlbarg que começa como uma personagem mínima, mas é uma presença quase solene. Sempre com um comentário sagaz, a atitude certa, o toque reconfortante. Passa despercebido no meio das estrelas maiores, mas é o mais fundamental. O filme no seu todo é longo, muito centrado em Roberts e ignora as outras perspectivas. Quem se identificar com outra personagem obviamente vai ficar desiludido. Depois tem uma enorme componente sonora que confunde mais do que ajuda. E rouba a Woody Allen mais do que a fonte dos créditos (que já tinha usado antes). É um estilo de drama como o outro realizador fazia nos anos 90, só adaptado à década em curso. Uma de disconexão entre gerações, de ódio. Maggie também fala disso. É um filme cheio de intenções, com actores de topo e uma produção que foi pensada ao pormenor se estivermos atentos. Só que no seu todo, soa a oco. Tinha de ser mais assertivo, mais polémico. Menos mensagens metidas nas entrelinhas e mais gritadas com todos os pulmões. Para ver, mas dificilmente para rever. After the Hunt (2025) — 139 min - Drama - 09/10/2025 Your rating: Uma professora universitária encontra-se numa encruzilhada pessoal e profissional quando uma aluna de topo faz uma acusação contra um dos seus colegas, e um segredo sombrio do seu próprio passado ameaça vir à luz. Director: Luca Guadagnino Writers: Nora Garrett Stars: Julia Roberts, Ayo Edebiri, Andrew Garfield, Michael Stuhlbarg, Chloë Sevigny, Lio Mehiel, David Leiber, Thaddea Graham, Will Price, Christine Dye, Lailani Olan, Nora Garrett, Frankie Ferrari, Burgess Byrd, Sadie Scott, Ariyan Kassam Photos No images were imported for this movie. Storyline Uma professora universitária encontra-se numa encruzilhada pessoal e profissional quando uma aluna de topo faz uma acusação contra um dos seus colegas, e um segredo sombrio do seu próprio passado ameaça vir à luz. Collections: Luca Guadagnino Genres: Drama Details Official Website: — Country: United States of America, Italy Language: English, German Release Date: 09/10/2025 Box Office Company Credits Production Companies: Frenesy Film, Imagine Entertainment, Big Indie Pictures, Amazon MGM Studios Technical Specs Runtime: 2 h 19 min Filmes 2025 Filmes Amazon PrimedependênciaacusaçãoviolênciaUniversidadeProfessoresNuno Reis